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Austeridade de Javier Milei desacelerou os preços e melhorou as contas públicas, mas desemprego, perda de renda e cortes de subsídios ampliam as dificuldades das famílias.
por Regina Papini Steiner - 1605News Brasil
A redução da inflação deixou de ser suficiente para assegurar melhores condições de vida na Argentina. Enquanto o governo de Javier Milei apresenta a estabilidade fiscal como uma de suas principais conquistas, cozinhas comunitárias lotadas, clubes de troca e empréstimos destinados à compra de alimentos revelam uma realidade mais difícil para trabalhadores e famílias pobres.
O Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, o Indec, tem prevista para 24 de setembro a divulgação do indicador de pobreza referente ao primeiro semestre de 2026. Até a publicação do relatório oficial, qualquer percentual deve ser tratado como estimativa, e não como resultado confirmado.
Projeções da Universidade Católica Argentina indicam que a pobreza estaria atualmente entre 31% e 32% da população. A instituição estima que o índice poderia alcançar 35% até o final do ano, caso persistam a perda de empregos, a estagnação dos salários e o enfraquecimento do consumo.
Inflação menor não garante comida na mesa
Javier Milei chegou à Presidência no final de 2023 prometendo derrotar a inflação, reduzir o tamanho do Estado e eliminar o déficit público. Seu programa incluiu cortes nas despesas governamentais, contenção dos salários do funcionalismo, retirada de subsídios e redução de políticas sociais.
O ajuste ajudou a desacelerar os preços e a reorganizar as contas públicas, depois de anos de inflação elevada e desequilíbrios fiscais. Contudo, transferiu uma parcela significativa dos custos para a população.
A retirada de subsídios elevou despesas com transporte, energia e serviços básicos. Paralelamente, salários e aposentadorias enfrentaram dificuldades para acompanhar o custo de vida. Uma inflação menor significa que os preços passam a subir mais lentamente, mas não que produtos e serviços retornam aos valores anteriores.
Essa diferença é fundamental para compreender a situação argentina. Uma família pode enfrentar inflação mais baixa e, ainda assim, continuar sem renda suficiente para pagar aluguel, alimentação, eletricidade e transporte.
Desemprego e perda de renda
O desemprego argentino atingiu 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período de 2025. O emprego no setor privado diminuiu durante 13 meses consecutivos, segundo informações reunidas pela Reuters.
As dificuldades também alcançam pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos. Com menos dinheiro circulando, as famílias reduzem compras, adiam despesas e recorrem ao crédito até mesmo para adquirir alimentos. O resultado é uma cadeia de empobrecimento que atinge o comércio, a indústria voltada ao mercado interno e os serviços.
Nos bairros populares, clubes de troca voltaram a ocupar espaços comunitários. Roupas usadas e objetos domésticos são entregues em troca de farinha, açúcar, óleo e macarrão. A prática remete à crise argentina do início dos anos 2000, quando a falta de dinheiro levou milhares de pessoas a criar redes alternativas de sobrevivência.
As duas faces do programa de Milei
O governo afirma que a austeridade é necessária para corrigir desequilíbrios acumulados durante décadas. Na avaliação oficial, o controle das contas públicas criaria condições para investimentos, crescimento econômico e recuperação futura dos salários.
A oposição, sindicatos e movimentos sociais argumentam que o equilíbrio fiscal está sendo obtido mediante a redução de direitos e a transferência de renda dos trabalhadores para os setores mais ricos. Também questionam cortes em universidades, hospitais, aposentadorias e programas de assistência alimentar.
As duas dimensões precisam aparecer na cobertura jornalística. A Argentina enfrentava uma crise econômica grave antes da posse de Milei, com inflação elevada, endividamento e perda de poder aquisitivo. Isso não impede a investigação sobre quem está pagando o preço das medidas adotadas para enfrentar esses problemas.
Pobreza havia recuado depois do primeiro choque
No primeiro semestre de 2024, durante a fase inicial do ajuste promovido por Milei, a pobreza alcançou 52,9%. Posteriormente, o índice oficial caiu para 31,6% no primeiro semestre de 2025 e para 28,2% no segundo semestre daquele ano.
A redução foi favorecida pela desaceleração da inflação e por alguma recuperação dos rendimentos. Entretanto, análises posteriores indicaram perda de força nessa trajetória. Estudos acadêmicos também questionam se a medição baseada principalmente na renda monetária consegue captar plenamente gastos com moradia, serviços e outras necessidades essenciais.
Se o novo levantamento confirmar uma elevação da pobreza, será o primeiro aumento depois do período de queda registrado nos indicadores semestrais. Ainda assim, o resultado permaneceria abaixo do pico observado em 2024. Essa comparação é necessária para evitar tanto a propaganda oficial quanto a conclusão exagerada de que não houve nenhuma melhora.
A disputa política sobre a vida concreta
O desempenho econômico será central para o futuro político de Milei. Pesquisa da AtlasIntel citada pela Reuters indicou aumento da desaprovação do presidente entre os argentinos de baixa renda. Esse foi justamente um dos grupos que apoiaram sua eleição, insatisfeitos com a inflação e com os partidos tradicionais.
A pobreza não pode ser analisada somente como um número. Ela aparece na redução das refeições, no abandono de tratamentos médicos, no endividamento e na dificuldade para pagar transporte ou manter uma moradia.
A estabilização econômica somente produzirá uma recuperação social duradoura se for acompanhada pela criação de empregos, valorização dos salários, fortalecimento da produção e proteção das famílias mais vulneráveis. Sem essas medidas, a queda da inflação corre o risco de existir nas estatísticas antes de ser percebida na vida cotidiana.
Fontes: Reuters — pobreza e desgaste social na Argentina, Indec — pobreza e indigência nos centros urbanos, Clacso — debate sobre a medição da pobreza
Publicado por:
1605News Brasil
Regina Papini Steiner é jornalista, entrevistadora e diretora teatral, com atuação voltada à cultura, diversidade e aos direitos humanos.
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