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Calor extremo transforma gravidez e nascimento em fronteira da desigualdade climática
Gestantes, recém-nascidos e profissionais da saúde enfrentam riscos crescentes, sobretudo em regiões pobres, sem infraestrutura, água e atendimento adequado
Por Sonia Mathias —1605News Brasil
A crise climática já não pode ser compreendida apenas por meio de geleiras derretendo, florestas incendiadas ou cidades alagadas. Ela também alcança um dos momentos mais delicados da vida humana: a gestação, o parto e os primeiros dias de uma criança.
O secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, Simon Stiell, alertou, em 5 de outubro, que o calor extremo está transformando a gravidez e o nascimento em uma nova linha de desigualdade climática. A declaração foi feita durante uma reunião ministerial preparatória para a COP31, realizada nas Ilhas Fiji.
Dados apresentados no encontro indicam que 98% dos profissionais consultados haviam atendido pelo menos uma gestante e 99% haviam cuidado de um bebê cuja saúde consideravam afetada pelo calor intenso. O levantamento registra a percepção dos trabalhadores da saúde e não significa que todos os casos tenham recebido diagnóstico clínico individual relacionado às altas temperaturas. Ainda assim, os números revelam a dimensão da preocupação entre quem atua diretamente no atendimento materno e neonatal. unfccc.int
Riscos começam antes do nascimento
A exposição ao calor extremo pode provocar desidratação, exaustão térmica e agravamento de problemas cardiovasculares, respiratórios e renais. Durante a gravidez, as alterações naturais do organismo tornam a regulação da temperatura mais difícil, aumentando a vulnerabilidade da mulher.
A Organização Mundial da Saúde relaciona os eventos climáticos, incluindo o calor intenso, ao aumento do risco de complicações maternas e perinatais. Entre os possíveis efeitos estão hipertensão gestacional, diabetes gestacional, parto prematuro, baixo peso ao nascer e morte fetal.
Isso não significa que todo problema ocorrido durante uma onda de calor tenha sido diretamente causado pela mudança climática. A relação precisa ser avaliada por profissionais e estudos epidemiológicos. Entretanto, o conjunto das evidências demonstra que temperaturas cada vez mais elevadas adicionam um fator de risco que os sistemas de saúde já não podem ignorar.
Recém-nascidos também possuem menor capacidade de controlar a própria temperatura. O organismo de um bebê aquece mais rapidamente, enquanto a dependência de adultos para hidratação, abrigo e deslocamento torna sua proteção inseparável das condições sociais da família.
O calor não atinge todas as mulheres da mesma maneira
Uma gestante que trabalha em ambiente climatizado, possui água potável, transporte particular e acompanhamento médico enfrenta condições muito diferentes das vividas por uma trabalhadora rural, uma vendedora ambulante ou uma profissional da limpeza exposta ao sol durante horas.
Mulheres pobres frequentemente não podem interromper o trabalho nos períodos mais quentes. Muitas dependem de transporte coletivo superlotado, vivem em casas com ventilação insuficiente ou moram em bairros onde faltam árvores, áreas verdes e infraestrutura urbana.
A desigualdade também aparece no acesso à eletricidade. Ar-condicionado, ventiladores e refrigeração adequada dependem de renda e de um fornecimento estável de energia. Para milhões de famílias, manter a casa fresca durante uma onda de calor significa aumentar uma conta que já compromete o orçamento doméstico.
Nos territórios mais vulneráveis do Sul Global, o problema pode ser ainda mais grave. Falta de água, unidades de saúde distantes, estradas precárias e escassez de profissionais transformam um episódio de calor em risco para a mãe e para o bebê.
Trabalhadoras precisam de proteção específica
Os protocolos de segurança ocupacional nem sempre consideram as necessidades de gestantes expostas a temperaturas elevadas. Muitas trabalhadoras continuam desempenhando atividades físicas intensas, usando uniformes pesados ou permanecendo em locais mal ventilados porque não existem regras claras para pausas, hidratação e mudança temporária de função.
Planos de proteção precisam estabelecer limites seguros de exposição, intervalos regulares, disponibilidade permanente de água e ambientes frescos para descanso. Em condições perigosas, a gestante deve ter direito ao afastamento ou à transferência de atividade sem redução salarial.
Essas garantias são especialmente importantes para trabalhadoras informais. Vendedoras de rua, agricultoras, catadoras de materiais recicláveis e entregadoras nem sempre possuem vínculo empregatício, licença remunerada ou proteção previdenciária.
Quando uma mulher precisa escolher entre preservar a renda e evitar o calor, a responsabilidade não pode ser colocada apenas sobre ela. Cabe ao Estado criar mecanismos de proteção social e assegurar que o cuidado com a saúde não resulte em fome, endividamento ou perda do trabalho.
Hospitais também sofrem com temperaturas elevadas
Maternidades e unidades neonatais precisam manter condições térmicas controladas. Quando o prédio possui ventilação inadequada, equipamentos antigos ou interrupções de energia, o calor ameaça pacientes e trabalhadores.
Profissionais de saúde submetidos a jornadas extensas em ambientes quentes podem sofrer desidratação, fadiga e redução da capacidade de concentração. Em áreas com equipes insuficientes, a mesma pessoa precisa cuidar de muitas pacientes enquanto enfrenta condições físicas adversas.
O risco aumenta onde faltam geradores, manutenção, água e equipamentos de refrigeração. Incubadoras e medicamentos também dependem de energia estável. Dessa forma, a adaptação climática dos sistemas de saúde deve incluir infraestrutura, não apenas campanhas educativas.
Reformar maternidades, instalar energia renovável com sistemas de armazenamento, melhorar a ventilação e garantir abastecimento hídrico são medidas de saúde pública. Não podem ser tratadas como luxo ou despesa secundária.
Planos climáticos ainda precisam incorporar a saúde materna
Governos elaboram planos para enfrentar secas, enchentes, incêndios e ondas de calor, mas a saúde de gestantes e bebês nem sempre aparece como prioridade específica. Alertas meteorológicos genéricos são insuficientes quando não informam o que fazer, onde procurar atendimento e quais direitos podem ser acionados.
Um plano climático voltado à saúde materna deveria reunir informações meteorológicas e sanitárias, identificar territórios vulneráveis e acionar agentes comunitários antes dos períodos mais perigosos. Consultas de pré-natal poderiam incluir orientações sobre hidratação, sintomas de exaustão térmica e locais públicos disponíveis para proteção.
Também é necessário garantir transporte até as unidades de saúde. Em dias de calor extremo, caminhar longas distâncias ou esperar horas por um ônibus pode representar risco adicional, especialmente no final da gestação.
A proteção não deve terminar no parto. Bebês, mães no período pós-parto e mulheres que amamentam precisam de acompanhamento, água suficiente, alimentação e moradia adequada.
Países que menos poluíram enfrentam as maiores dificuldades
A emergência climática reproduz uma injustiça histórica. Países e populações que menos contribuíram para o acúmulo de gases de efeito estufa frequentemente possuem os menores recursos para proteger hospitais, trabalhadores e comunidades.
Nações ricas construíram parte de sua prosperidade por meio da queima de carvão, petróleo e gás. Hoje, os países pobres precisam enfrentar temperaturas mais altas, perdas agrícolas, doenças e desastres sem dispor do mesmo espaço fiscal para financiar adaptação.
O financiamento climático internacional precisa alcançar diretamente os sistemas públicos de saúde e as comunidades mais expostas. Recursos destinados apenas a grandes obras ou projetos privados não resolverão as necessidades das gestantes que vivem longe de hospitais ou trabalham sob o sol.
A cooperação internacional também deve incluir transferência de tecnologia, capacitação profissional e sistemas de energia confiáveis para maternidades e centros de atendimento.
Proteger uma gestação é responsabilidade coletiva
Recomendações individuais, beber água, evitar o sol e usar roupas leves, são importantes, mas têm alcance limitado. Elas não resolvem a ausência de água potável, a obrigação de trabalhar ao ar livre ou a falta de atendimento médico.
Transformar a proteção em responsabilidade exclusiva da gestante pode esconder as causas sociais do risco. A mulher não controla a temperatura da cidade, o horário do trabalho, a estrutura do hospital nem a política de energia.
O alerta da ONU exige que governos relacionem política climática, saúde pública, direitos trabalhistas e proteção social. Gestantes e recém-nascidos precisam aparecer nos planos de emergência, nos orçamentos e nas estratégias de adaptação.
A temperatura do planeta está aumentando, mas suas consequências não são iguais para todos. Proteger a gravidez e o nascimento diante do calor extremo é uma questão de saúde, de direitos das mulheres e, sobretudo, de justiça climática.
Fontes: UNFCCC — calor extremo, gravidez e nascimento; OMS — proteção da saúde materna, neonatal e infantil; Unicef — orientações sobre ondas de calor.
Publicado por:
Sonia Mathias
Sonia Mathias é jornalista, dedicada à comunicação, à informação de interesse público e à valorização de histórias que contribuem para uma sociedade mais consciente, plural e democrática.
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