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Rascunho atribuído a Marco Rubio pretendia condenar restrições europeias a produtos dos assentamentos israelenses, mas não recebeu apoio da Casa Branca

por Sonia Mathias - 1605News Brasil

Um documento preparado por funcionários norte-americanos expôs divergências dentro do governo dos Estados Unidos sobre como responder às medidas adotadas contra os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada.

Segundo reportagem da Reuters, autoridades em Jerusalém e Washington elaboraram, em 8 de setembro de 2026, uma declaração que seria atribuída ao secretário de Estado Marco Rubio. O texto condenaria a decisão de Reino Unido, França e Canadá de proibir a importação de mercadorias produzidas nos assentamentos.

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O rascunho classificava as medidas comerciais como hostis a Israel e buscava associá-las ao antissemitismo e ao movimento internacional de boicote, desinvestimento e sanções. O documento, porém, nunca foi divulgado.

Três fontes ouvidas pela agência disseram que a proposta não recebeu apoio da Casa Branca nem da alta direção do Departamento de Estado. Por se tratar de um rascunho interno, seu conteúdo não representa uma posição oficial adotada pelo governo norte-americano.

Divergências dentro do governo dos Estados Unidos

De acordo com a apuração, a elaboração do documento teria sido impulsionada por David Milstein, assessor do embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee.

O episódio mostra uma disputa entre setores da diplomacia fortemente alinhados ao governo de Benjamin Netanyahu e autoridades que preferem evitar uma ruptura com países aliados — inclusive governos que mantêm relações históricas com Israel.

Questionado sobre as medidas europeias no mesmo dia, Marco Rubio evitou condenar diretamente o Reino Unido. O secretário declarou apenas que os Estados Unidos não adotariam a mesma política.

A ausência de publicação não significa uma mudança estrutural na aliança entre Washington e Tel Aviv. Os Estados Unidos continuam sendo o principal aliado internacional e fornecedor militar de Israel. O caso mostra, entretanto, que existem divergências sobre até onde Washington deve ir na defesa das políticas israelenses para a Cisjordânia.

Países restringem produtos dos assentamentos

Reino Unido, França e Canadá proibiram a entrada de mercadorias provenientes de assentamentos israelenses na Cisjordânia. Outros países apoiaram ou informaram que avaliavam medidas semelhantes.

O objetivo declarado é impedir que o comércio internacional ajude a financiar a expansão das colônias construídas em território ocupado. Em junho, Reino Unido, Canadá, França e Noruega já haviam anunciado sanções coordenadas contra pessoas, empresas e redes acusadas de financiar ou facilitar ataques de colonos contra palestinos.

Israel rejeita essas medidas e sustenta que elas politizam o comércio e discriminam o país. O governo israelense também contesta a posição internacional predominante sobre a ilegalidade dos assentamentos, invocando vínculos históricos e religiosos com o território.

Como resposta às restrições britânicas, o governo israelense anunciou o fechamento do Consulado do Reino Unido em Jerusalém Oriental e outras medidas diplomáticas.

Ocupação não pode desaparecer atrás da disputa diplomática

A controvérsia interna em Washington não deve ocultar a realidade vivida pelos palestinos. A Cisjordânia está sob ocupação israelense desde a guerra de 1967. Desde então, assentamentos, estradas exclusivas e áreas militares modificaram progressivamente a geografia do território.

Relatório da ONU divulgado em março de 2026 apontou aceleração da expansão dos assentamentos e da anexação de áreas da Cisjordânia, acompanhada pelo deslocamento de comunidades palestinas. O documento classifica essa expansão como contrária ao direito internacional.

Famílias palestinas enfrentam demolições, confisco de terras, restrições de circulação e ataques praticados por colonos. Comunidades dependentes da agricultura podem perder o acesso a plantações, fontes de água e áreas de pastagem.

A expansão também compromete a continuidade territorial necessária para um eventual Estado palestino. Projetos como o assentamento E1, localizado entre Jerusalém Oriental e Ma’ale Adumim, são criticados porque poderiam separar partes da Cisjordânia e dificultar ainda mais uma solução baseada em dois Estados.

Crítica a um governo não é antissemitismo

O rascunho norte-americano reacende um debate indispensável: a diferença entre críticas às políticas do Estado de Israel e manifestações antissemitas.

O antissemitismo é uma forma de racismo dirigida contra judeus, suas instituições, tradições ou comunidades. Deve ser identificado e combatido com rigor, especialmente diante do crescimento de discursos de ódio e ataques contra pessoas judias em diferentes países.

Criticar assentamentos, ocupação militar, demolições ou decisões do governo Netanyahu, entretanto, não constitui automaticamente antissemitismo. Da mesma maneira, responsabilizar empresas ou autoridades por violações não significa atribuir culpa coletiva ao povo judeu.

Confundir essas dimensões pode enfraquecer o próprio combate ao preconceito, além de dificultar a fiscalização das ações de Estados e governos.

Comércio e responsabilidade internacional

As restrições a produtos provenientes dos assentamentos introduzem uma questão concreta: empresas e consumidores devem contribuir economicamente para atividades realizadas em território ocupado?

Os defensores das medidas afirmam que elas não representam um boicote a Israel como país, pois procuram diferenciar as mercadorias produzidas dentro das fronteiras israelenses reconhecidas daquelas originadas nos assentamentos.

Já o governo israelense considera essa distinção discriminatória e afirma que as sanções prejudicam a cooperação econômica e afastam as possibilidades de diálogo.

A reportagem deve investigar quais mercadorias são atingidas, o valor desse comércio e como são verificadas suas origens. Também é necessário examinar as condições dos trabalhadores palestinos empregados nos assentamentos, que frequentemente dependem desses postos por causa das restrições impostas à economia local.

Um rascunho que revela limites diplomáticos

Embora nunca tenha se tornado uma declaração oficial, o documento mostra o desconforto provocado quando aliados tradicionais de Israel passam das críticas verbais para medidas econômicas.

O episódio também evidencia que a política norte-americana para o Oriente Médio não é definida apenas por diplomatas. Assessores presidenciais, grupos religiosos, organizações de pressão, empresas de armamentos e interesses eleitorais disputam influência sobre as decisões de Washington.

A questão central continua sendo a vida da população palestina. Enquanto governos debatem a linguagem de comunicados e sanções, comunidades perdem terras, casas e condições de sobrevivência. Uma política internacional coerente precisa avaliar as consequências concretas da ocupação e assegurar que medidas contra violações não sejam confundidas com hostilidade contra povos ou religiões.

Fontes: Reuters — documento norte-americano não publicado, Governo britânico — medidas contra redes ligadas à violência de colonos, ONU — expansão dos assentamentos e deslocamento de palestinos