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O avanço de candidatos com forte presença digital exige uma revisão da formação de lideranças, da escolha de candidaturas e da maneira de fazer política. Renovar deve significar também preparar pessoas para representar a sociedade.

Por Regina Papini Steiner — 1605News Brasil
Artigo de opinião

O primeiro turno das eleições de 2026 deixa uma provocação aos partidos brasileiros: até quando será possível escolher candidatos pelos mesmos critérios e esperar que uma sociedade transformada pelas redes sociais responda como antes? A votação expressiva de figuras com forte presença digital evidencia que a disputa política passa, cada vez mais, pela capacidade de conquistar atenção, construir identificação e manter uma conversa cotidiana com o eleitor.

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A cobertura dos resultados registra votações recordes de influenciadores de direita em nove estados. Em outra análise, publicada pelo UOL, a ascensão de nomes como Jones Manoel também aparece como sinal de mudança na relação entre comunicação e representação política. Embora sejam trajetórias distintas, esses exemplos reforçam a necessidade de examinar o alcance eleitoral da presença digital.

Chamar esse processo de “eleição do TikTok” é uma interpretação política, não uma explicação completa dos resultados. Nenhuma plataforma, isoladamente, dá conta da complexidade do voto. Ainda assim, a expressão traduz uma inquietação: quanto da escolha eleitoral nasce do conhecimento das propostas e quanto nasce da familiaridade com um rosto que aparece diariamente na tela?

TikTok, YouTube e Instagram se tornaram espaços de construção de reputação e pertencimento. Quem acompanha um candidato todos os dias pode desenvolver a sensação de conhecê-lo, mesmo sem ter examinado seu programa ou sua atuação. O vídeo aproxima. A repetição fixa o nome. A linguagem direta facilita a identificação. Os partidos precisam compreender essa dinâmica e assumir responsabilidade pelo conteúdo que oferecem nesse ambiente.

Visibilidade abre portas, mas precisa vir acompanhada de compromisso público.

Saber comunicar é uma qualidade relevante para quem pretende representar a população. Entretanto, produzir vídeos populares não comprova, por si só, capacidade de legislar, fiscalizar governos, discutir orçamento ou formular políticas públicas. A audiência pode ajudar a conquistar um mandato; o exercício desse mandato exige preparo, responsabilidade e disposição para prestar contas.

Também seria um erro desqualificar jovens candidatos apenas porque construíram suas trajetórias nas redes. A juventude tem direito de ocupar a política e pode trazer experiências que as estruturas partidárias pouco escutam. O problema surge quando a renovação se resume à idade, à aparência ou ao número de seguidores.

Um rosto novo pode reproduzir práticas antigas. Uma liderança experiente pode contribuir para mudanças importantes. O critério deve ser a combinação entre capacidade de diálogo, compromisso democrático, conhecimento dos problemas sociais e coerência entre discurso e prática.

Há, ainda, uma distinção necessária: a imagem pessoal de um candidato pode alcançar eleitores para além da identificação partidária, mas deputados não são eleitos de maneira independente das legendas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o sistema proporcional considera os votos dos candidatos e dos partidos ou federações na distribuição das cadeiras. A força individual continua vinculada a uma estrutura coletiva.

Essa relação aumenta a responsabilidade dos partidos. Ao escolher uma personalidade capaz de atrair muitos votos, a legenda precisa responder também pelo projeto político que essa candidatura representa.

Repensar candidaturas começa muito antes da campanha.

É preciso abrir espaço para lideranças de bairros, escolas, universidades, movimentos culturais, sindicatos e organizações sociais. Mulheres, pessoas negras, indígenas, trabalhadores e moradores das periferias precisam encontrar oportunidades reais de participação, formação e acesso aos recursos partidários.

Não basta anunciar diversidade e concentrar o investimento nos nomes já conhecidos. Renovar exige construir condições para que pessoas com trabalho comunitário e propostas consistentes também sejam vistas e ouvidas.

Os partidos deveriam manter programas permanentes de formação política, preparar novas lideranças e adotar critérios transparentes para distribuir recursos de campanha. Deveriam, igualmente, aprender a comunicar propostas com clareza, responder às dúvidas da população e sustentar diálogo durante todo o mandato.

Estar nas redes não pode significar apenas publicar ataques ou transformar qualquer debate em espetáculo. A comunicação política precisa ajudar o cidadão a compreender escolhas, consequências e responsabilidades.

As eleições de 2026 oferecem uma oportunidade de revisão. Insistir em candidaturas escolhidas exclusivamente por acordos internos, sobrenomes tradicionais ou tempo de permanência nas estruturas partidárias pode aprofundar a distância entre os partidos e a sociedade. Selecionar candidatos apenas pela popularidade digital cria outro problema: trocar o debate sobre representação por uma disputa de audiência.

O desafio é formar lideranças que saibam ocupar as telas e estejam presentes na vida concreta da população. Pessoas capazes de ouvir, estudar, propor, negociar e responder por suas decisões.

A democracia precisa de renovação com conteúdo. O voto conquistado pela visibilidade deve se transformar em trabalho público e os partidos precisam começar a preparar essa transformação antes de lançar a próxima candidatura.