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Violência digital: mulheres têm direito à internet segura

Por Regina Papini Steiner | 1605News Brasil
Artigo de opinião — 6 de novembro de 2026

Uma mulher não deveria precisar escolher entre participar da vida pública e preservar sua segurança. Trabalhar, estudar, expressar opiniões e construir relações pela internet são atividades que precisam ser exercidas com liberdade. Quando a ameaça interfere nessas escolhas, o problema exige uma resposta coletiva.

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Em 5 de novembro, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, apresentou a campanha de 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência e do Racismo contra as Mulheres, prevista para ocorrer entre 20 de novembro e 10 de dezembro. Com o tema “Conectadas, Seguras e Vivas”, a mobilização terá foco na violência digital contra meninas e mulheres e contará com apoio da ONU Mulheres. 

Considero necessária essa escolha. Mas uma campanha precisa ser avaliada pelo que consegue mobilizar de proteção concreta. Sua importância estará na capacidade de aproximar informação, atendimento e responsabilização, inclusive depois que terminar o calendário de atividades.

A resposta mais fácil costuma recair sobre a própria mulher: fechar o perfil, deixar de publicar, evitar determinados assuntos. Essas medidas podem fazer parte de uma decisão pessoal de proteção, que merece respeito. O que não podemos aceitar é transformá-las em obrigação ou em solução pública para a violência.

O direito de participar precisa vir acompanhado de condições para permanecer.

Defendo que as plataformas assumam responsabilidades compatíveis com o espaço que ocupam na vida social. Denunciar uma ameaça deve ser um procedimento acessível, com acompanhamento e resposta compreensível. A pessoa atingida precisa saber o que aconteceu com sua comunicação, quais medidas foram adotadas e como recorrer quando a proteção falha.

Também cabe ao poder público oferecer atendimento preparado. Quem procura ajuda não pode encontrar desconfiança, julgamento moral ou a ideia de que deveria simplesmente abandonar a internet. Acolher exige reconhecer o contexto da agressão e orientar sem ampliar a exposição.

É igualmente importante considerar as diferenças entre as mulheres. Uma política que enfrenta violência de gênero e racismo precisa escutar mulheres negras, indígenas, quilombolas, mulheres com deficiência e de diferentes territórios. Acesso à informação, recursos de proteção e possibilidade de procurar atendimento não são condições que podemos presumir iguais para todas.

A campanha anunciada também prevê uma cartilha de supervisão parental voltada à proteção de meninas no ambiente digital. Segundo a divulgação oficial, a orientação procura combinar segurança e autonomia.  Esse equilíbrio merece atenção: proteger exige diálogo, informação e confiança. O medo não deve ser utilizado para restringir a participação das meninas ou fazê-las acreditar que sua liberdade é a origem do perigo.

Na educação, precisamos discutir respeito, consentimento e responsabilidade pelo que se publica e compartilha. Famílias e escolas devem contar com apoio para essa tarefa. Não é razoável atribuir a elas toda a responsabilidade enquanto empresas e instituições permanecem distantes das consequências.

Como jornalista, considero essencial que a imprensa também examine sua conduta. Cobrir uma agressão exige cuidado com imagens, mensagens e informações pessoais. A reprodução desnecessária de material ofensivo pode prolongar a exposição. A relevância pública está em esclarecer o ocorrido e cobrar respostas, preservando a dignidade de quem foi atingida.

Minha expectativa é que os 21 dias de ativismo fortaleçam uma atuação permanente. Isso significa acompanhar a estrutura dos serviços, a formação das equipes e a experiência das mulheres que buscam ajuda. Significa também divulgar resultados verificáveis, sem confundir alcance de campanha com redução comprovada da violência.

O anúncio é um ponto de partida. Ainda não há resultados dessa mobilização futura a apresentar. Há, porém, uma responsabilidade que já pode ser cobrada: construir condições para que mulheres e meninas utilizem a tecnologia com autonomia e segurança.

Quero uma internet em que nossas vozes possam circular sem que a intimidação determine quem permanece e quem se retira. A liberdade das mulheres precisa ser protegida também onde hoje se trabalha, se aprende, se debate e se constrói participação pública.

Fontes da base factual: Agência Gov — apresentação da campanha e proteção de meninas; Agência Gov/Secom — tema e período da mobilização.

FONTE/CRÉDITOS: Agência Gov — apresentação da campanha e proteção de meninas; Agência Gov/Secom — tema e período da mobilização.