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Suspensão dos voos amplia isolamento da região, enquanto governos e forças locais trocam acusações sobre a retomada dos combates

por Sonia Mathias - 1605News Brasil

A frágil paz no norte da Etiópia sofreu um novo abalo nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2026. Forças ligadas à Frente de Libertação do Povo Tigré, a TPLF, assumiram o controle do Aeroporto Internacional Alula Aba Nega, em Mekelle, segundo três fontes locais ouvidas pela Reuters. A movimentação levou a Ethiopian Airlines a suspender os voos regulares para Mekelle, Shire e Axum.

A suspensão das operações aéreas foi confirmada pela companhia estatal, que alegou a “situação atual na região do Tigré”, sem apresentar outros detalhes. A tomada do aeroporto, entretanto, foi inicialmente informada por fontes locais e de segurança. Na primeira apuração, nem o governo federal nem a TPLF haviam respondido aos pedidos de esclarecimento da Reuters.

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Posteriormente, o governo regional do Tigré afirmou que suas forças reagiram a uma “invasão” promovida pelo Exército federal. A administração regional acusou as tropas governamentais de realizar bombardeios com aviões, drones e artilharia. Representantes próximos ao governo de Adis Abeba, por sua vez, responsabilizaram a TPLF pela escalada. Essas versões são conflitantes e ainda precisam de verificação independente.

Voos interrompidos e ajuda humanitária ameaçada

O aeroporto de Mekelle não representa apenas uma instalação militar ou estratégica. Desde o fim da guerra anterior, ele se tornou uma das principais ligações entre o Tigré e o restante da Etiópia, atendendo moradores, comerciantes, profissionais de saúde e trabalhadores humanitários.

A interrupção dos voos pode agravar o isolamento da população. Estradas e rotas terrestres já foram bloqueadas ou severamente restringidas durante o conflito de 2020 a 2022, dificultando a entrada de alimentos, medicamentos, combustível e equipamentos médicos. Não havia, até a apuração inicial, confirmação de que voos humanitários ou fretados também estivessem suspensos.

A situação tornou-se ainda mais preocupante após a destruição, em 20 de setembro, de um caminhão que transportava ajuda alimentar destinada a deslocados internos. Uma entidade católica do Tigré afirmou que o veículo foi atingido por um drone. Os Estados Unidos condenaram o ataque e solicitaram investigação, mas a autoria não havia sido estabelecida de forma independente.

A guerra anterior demonstrou que controlar aeroportos, estradas, telecomunicações e serviços bancários pode funcionar como arma contra a população. Quando essas estruturas deixam de operar, famílias perdem contato com parentes, agricultores não conseguem comercializar seus produtos e hospitais ficam sem insumos.

Feridas de uma guerra ainda aberta

A disputa atual não começou com a tomada do aeroporto. A TPLF dominou a política etíope durante quase três décadas, até a chegada de Abiy Ahmed ao cargo de primeiro-ministro, em 2018. A deterioração das relações entre o governo federal e a administração do Tigré desembocou na guerra iniciada em novembro de 2020.

O conflito envolveu forças federais, tropas tigrínias, milícias de diferentes regiões e militares da vizinha Eritreia. Estimativas citadas por organizações e pesquisadores apontam centenas de milhares de mortes provocadas pelos combates, pela fome e pela falta de atendimento médico. Todas as forças envolvidas foram acusadas de violações de direitos humanos.

Em 2 de novembro de 2022, o governo federal e a TPLF assinaram em Pretória, na África do Sul, um acordo de cessação permanente das hostilidades mediado pela União Africana. O pacto previa desarmamento, restauração dos serviços, entrada de ajuda humanitária e resolução política das áreas disputadas. A União Africana reiterou, em janeiro de 2026, que as partes deveriam evitar ações capazes de destruir os avanços alcançados pelo acordo.

A paz, porém, permaneceu incompleta. Questões territoriais, o retorno de populações deslocadas, a retirada de forças estrangeiras e a reintegração de combatentes não foram plenamente resolvidas. Governo federal e TPLF passaram a acusar-se mutuamente de violar o pacto.

Nova aliança aumenta tensão nacional

A tomada do aeroporto ocorre poucos dias depois de a TPLF e outros seis grupos armados anunciarem uma aliança contra o governo de Abiy Ahmed. A formação da coalizão representa uma mudança política importante, mas sua capacidade de realizar operações coordenadas ainda precisa ser demonstrada.

O governo etíope acusa a Eritreia, adversária histórica do país, de apoiar integrantes da nova aliança. As autoridades eritreias negam financiar ou armar grupos etíopes.

A crise não se limita, portanto, à relação entre Mekelle e Adis Abeba. Ela envolve disputas entre regiões, fronteiras contestadas e interferências externas. Uma retomada da guerra poderá provocar deslocamentos em massa e atingir comunidades que ainda não reconstruíram suas casas, escolas, hospitais e meios de subsistência.

Mais do que acompanhar o avanço de forças militares, a cobertura precisa observar o destino dos civis. É necessário verificar se alimentos continuam chegando, se hospitais permanecem funcionando e se famílias deslocadas conseguem buscar proteção. Também será fundamental cobrar da União Africana uma atuação diplomática capaz de impedir que o acordo de Pretória se transforme apenas em um intervalo entre duas guerras.

Fontes