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Educação em São Paulo: falhas de Tarcísio e Nunes
Orçamento estadual, materiais digitais e desigualdade nas creches expõem problemas na educação sob Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes.
Análise jornalística
por Abel Iboji - Jornal 1605News Brasil
A educação pública em São Paulo exige uma avaliação que vá além dos anúncios de modernização e expansão de vagas. Na rede estadual, a flexibilização dos recursos destinados ao ensino e o histórico de decisões controversas sobre materiais didáticos levantam dúvidas sobre as prioridades do governo Tarcísio de Freitas. Na capital, uma auditoria sobre creches evidencia desigualdades que desafiam o discurso de eficiência da gestão Ricardo Nunes.
Os problemas têm características diferentes, mas convergem numa questão: oferecer matrícula, equipamentos ou plataformas não basta para garantir educação de qualidade. É necessário assegurar condições adequadas de aprendizagem, valorizar os profissionais e fiscalizar a aplicação do dinheiro público.
Uma escolha política que enfraquece a proteção da educação
Em novembro de 2024, a Assembleia Legislativa aprovou a proposta do governo Tarcísio que reduziu de 30% para 25% o percentual mínimo de receitas de impostos obrigatoriamente destinado à educação. Os cinco pontos percentuais restantes passaram a poder ser distribuídos entre educação e saúde. A aprovação em segundo turno ocorreu por 59 votos favoráveis e 19 contrários. CNN Brasil.
A mudança não significa, automaticamente, que todo esse valor tenha sido retirado das escolas: o gasto efetivo depende da execução de cada orçamento. Entretanto, ela diminui a garantia de financiamento exclusivo do ensino e amplia a liberdade do Executivo para redirecionar recursos.
O governo justificou a medida pela necessidade de financiar a saúde, especialmente diante do envelhecimento da população. A justificativa merece consideração, mas não elimina a crítica: atender uma necessidade social mediante a redução da proteção de outra é uma escolha política que precisa ser explicada à sociedade. UOL — aprovação e justificativas da proposta.
Uma política educacional consistente depende de continuidade. Ao tornar parte do financiamento mais vulnerável às decisões anuais do governo, a administração enfraquece uma proteção importante para planejar investimentos.
A modernização que tropeçou no próprio conteúdo
Outro episódio revelador ocorreu em 2023, quando a Secretaria Estadual da Educação anunciou que abriria mão dos livros do Programa Nacional do Livro e do Material Didático para determinadas etapas de ensino, priorizando conteúdo digital próprio.
Em artigo publicado naquele agosto, João Filho, do Intercept Brasil, criticou a decisão e destacou os riscos de centralização dos conteúdos e de redução da autonomia docente. Trata-se de uma análise de opinião sobre uma decisão daquele período, e não de uma descrição de todas as práticas atuais da rede. Intercept Brasil.
A gestão posteriormente recuou da rejeição aos livros. No Brasil 247, o jornalista Paulo Henrique Arantes registrou o recuo e abordou erros encontrados nos materiais digitais, entre eles a atribuição da assinatura da Lei Áurea a Dom Pedro II. Sua coluna também apresentou a crítica do educador César Callegari à transformação dos professores em exibidores de slides. Brasil 247 — “Os educadores de Tarcísio”.
O episódio demonstra uma falha concreta de planejamento e revisão pedagógica. Antes de anunciar a substituição de materiais consolidados, o governo deveria ter assegurado qualidade, condições de acesso e participação dos profissionais responsáveis pelo ensino.
A tecnologia pode ampliar possibilidades educativas. Seu valor, porém, depende do uso pedagógico, da infraestrutura disponível e da liberdade do professor para adaptar o trabalho às necessidades dos estudantes.
Na capital, vagas em creches convivem com atendimento desigual
Na educação municipal, um dos problemas mais graves está na diferença de condições entre creches administradas diretamente pela prefeitura e unidades conveniadas.
Reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em maio de 2026, apresentou uma auditoria do Tribunal de Contas do Município que identificou desigualdade na qualidade do atendimento. Segundo os dados divulgados, as conveniadas tinham, em média, 9,3 crianças por professor, enquanto nas unidades diretas a proporção era de 4,4. Folha — auditoria sobre creches.
A auditoria também apontou diferenças salariais e insuficiência de cobertura docente durante todo o horário de funcionamento. A Secretaria Municipal de Educação defendeu os convênios como fundamentais para garantir acesso em diferentes regiões e afirmou que as unidades seguem os parâmetros da rede municipal. Folha — dados e resposta da prefeitura.
Os achados exigem uma resposta que vá além da defesa do modelo. A expansão de vagas precisa vir acompanhada de critérios equivalentes de qualidade. Na primeira infância, a disponibilidade de adultos para cuidar, acolher e desenvolver atividades pedagógicas faz parte do próprio serviço educacional.
A responsabilidade municipal permanece mesmo quando a execução é delegada a uma entidade parceira. Cabe à prefeitura estabelecer padrões, acompanhar seu cumprimento e corrigir desigualdades.
Denúncias reforçam a necessidade de fiscalização
A fiscalização financeira também merece atenção. Em julho de 2024, a CartaCapital publicou declarações de Rosângela Crepaldi, investigada no caso conhecido como “máfia das creches”, que acusou Ricardo Nunes de receber repasses de recursos desviados quando ainda era vereador.
Na ocasião, a campanha de Nunes rejeitou as acusações e afirmou que os pagamentos correspondiam a serviços prestados. A reportagem informou ainda que o vídeo com as declarações não integrava o inquérito da Polícia Federal. Portanto, esse material não permite afirmar culpa ou condenação do prefeito. CartaCapital — acusações e resposta de Nunes.
O episódio reforça a necessidade de transparência sobre entidades conveniadas, fornecedores, pagamentos e prestação de contas. A investigação de responsabilidades individuais e a avaliação da qualidade da gestão são questões distintas; ambas exigem informação verificável.
Educação precisa ser prioridade demonstrada
As falhas examinadas atingem pilares da educação pública: financiamento protegido, qualidade dos materiais, autonomia pedagógica e igualdade no atendimento.
No estado, o governo precisa demonstrar que suas escolhas orçamentárias e tecnológicas melhoram a aprendizagem. Na capital, a prefeitura deve responder às desigualdades identificadas nas creches com medidas verificáveis, prazos e acompanhamento público.
A crítica às duas administrações se sustenta nesses pontos concretos. Educação de qualidade exige planejamento, fiscalização e compromisso com quem vive a rotina escolar. O resultado deve aparecer nas condições de trabalho dos professores e no atendimento aos estudantes.
Publicado por:
Abel Iboji
Abel Iboji é jornalista e radialista, pós-graduado em Comunicação e doutor em Marketing Digital. Atua na produção e divulgação de conteúdos, unindo experiência na comunicação, conhecimento acadêmico e estratégias voltadas ao ambiente digital.
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