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Por Regina Papini Steiner
Quando se fala em agronomia, muitas pessoas imaginam grandes propriedades, máquinas modernas, extensas plantações e investimentos elevados. Entretanto, o conhecimento agronômico também pode — e deve — estar presente nas pequenas propriedades rurais. É nesse encontro entre ciência, experiência e vida comunitária que surge a ideia de uma “agronomia familiar”.
Embora a expressão ainda não seja uma categoria jurídica ou técnica oficialmente consolidada, ela pode ser compreendida como uma agronomia direcionada à realidade da agricultura familiar: propriedades menores, utilização predominante da mão de obra da própria família, produção diversificada e forte vínculo com o território.
A Lei nº 11.326, de 2006, considera agricultor familiar aquele que, entre outros requisitos, não possui área superior a quatro módulos fiscais, utiliza predominantemente mão de obra familiar e obtém parte mínima da renda por meio das atividades desenvolvidas no estabelecimento rural.
A agricultura familiar representa aproximadamente 77% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e emprega cerca de 10,1 milhões de pessoas, segundo dados do último Censo Agropecuário disponíveis. Apesar dessa presença expressiva, responde por uma parcela menor da área ocupada e do valor total da produção. Essa diferença revela desigualdades no acesso à terra, ao crédito, à tecnologia e à assistência técnica.
Tecnologia adequada à realidade de cada família
Levar agronomia à agricultura familiar não significa simplesmente transferir para uma pequena propriedade o mesmo modelo utilizado em uma grande fazenda. Cada território possui condições próprias de solo, disponibilidade de água, clima, mão de obra, mercado e tradição produtiva.
Uma assistência técnica adequada precisa começar pela escuta. O engenheiro agrônomo pode contribuir com análises de solo, manejo da água, planejamento dos plantios, controle de pragas, recuperação de áreas degradadas e escolha de culturas. Contudo, as decisões devem considerar os conhecimentos acumulados pelas famílias ao longo de gerações.
Tecnologia, nesse contexto, não significa obrigatoriamente equipamento caro. Uma cisterna, um sistema de irrigação econômica, uma composteira, a cobertura do solo, o uso de biofertilizantes ou a implantação de uma agrofloresta podem representar transformações importantes.
Aplicativos de previsão do tempo, comercialização pela internet, equipamentos compartilhados e sistemas de energia solar também podem ser incorporados de forma gradual, desde que sejam acessíveis e respondam às necessidades reais da comunidade.
Diversificação protege a renda e a alimentação
Uma das principais características da agricultura familiar é a possibilidade de produzir diferentes alimentos no mesmo estabelecimento. Hortaliças, frutas, grãos, ovos, leite, mel, plantas medicinais e produtos artesanais podem compor uma atividade mais diversificada.
Essa variedade reduz a dependência de um único produto e pode diminuir os prejuízos provocados por secas, excesso de chuva, doenças ou oscilações de preço. Também contribui para a alimentação da própria família e para o abastecimento de feiras, mercados locais, escolas e equipamentos públicos.
A integração da agricultura com a apicultura é um exemplo desse potencial. Além da geração de renda com mel, própolis e outros produtos, as abelhas realizam a polinização e podem melhorar a produtividade de diversas culturas. Sistemas agroflorestais, criação de pequenos animais e processamento artesanal de alimentos são outras possibilidades de integração.
O desafio da assistência técnica
Para muitas famílias, o problema não é a falta de vontade para inovar, mas a dificuldade de acessar orientação contínua. Uma visita técnica isolada raramente resolve questões que envolvem várias etapas da produção.
É necessário acompanhar o planejamento, o plantio, o manejo, a colheita, o armazenamento e a comercialização. Também é preciso orientar o produtor sobre crédito rural, regularização, cooperativismo, certificações e acesso às políticas públicas.
A assistência técnica deve incluir mulheres, jovens, comunidades tradicionais e todos aqueles que participam do trabalho rural, mesmo quando sua contribuição permanece invisível nas estatísticas e nos documentos da propriedade.
A sucessão rural merece atenção especial. Sem renda, internet, educação, cultura e perspectivas profissionais, muitos jovens deixam o campo. Uma agronomia conectada à realidade familiar pode ajudar a transformar a propriedade em espaço de inovação, pertencimento e futuro.
Produzir sem apagar a história do campo
A ciência agronômica é indispensável, mas não deve desconsiderar a história de quem planta. Agricultores conhecem o comportamento das chuvas, as sementes adaptadas ao território, as plantas medicinais e os ciclos da natureza. Esse conhecimento não substitui a pesquisa científica, assim como a ciência não deve simplesmente apagar a experiência comunitária.
A verdadeira agronomia familiar nasce do diálogo entre esses dois saberes.
Fortalecer esse modelo significa democratizar a tecnologia, ampliar a assistência técnica e reconhecer que uma propriedade não é apenas uma unidade de produção. Ela também é moradia, memória, trabalho, cultura e continuidade entre gerações.
A agricultura familiar não precisa de soluções menores. Precisa de soluções construídas em sua própria medida.
Publicado por:
1605News Brasil
Regina Papini Steiner é jornalista, entrevistadora e diretora teatral, com atuação voltada à cultura, diversidade e aos direitos humanos.
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