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Enquanto produtores rurais cultivam a terra, milhões de abelhas realizam silenciosamente um serviço indispensável: a polinização das lavouras
Por Regina Papini Steiner
Quando uma abelha pousa em uma flor, não está apenas recolhendo néctar e pólen para alimentar a colmeia. Ao transportar grãos de pólen entre as flores, ela participa da reprodução das plantas, favorece a formação de frutos e sementes e presta um serviço essencial à agricultura.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os polinizadores influenciam aproximadamente 35% da produção agrícola mundial em volume. Cerca de três quartos das principais culturas alimentares do planeta dependem, pelo menos parcialmente, da polinização realizada por animais.
Essa relação mostra que apicultura e agricultura não devem ser tratadas como atividades separadas. O apicultor produz mel, própolis, cera, pólen e outros derivados, mas as abelhas também trabalham para o agricultor. Quando manejadas corretamente e mantidas em ambientes adequados, elas podem contribuir para aumentar a produtividade e melhorar a qualidade de diferentes culturas.
Mais abelhas podem significar melhores colheitas
Frutas, hortaliças, oleaginosas, castanhas, café e diversas sementes agrícolas recebem benefícios da presença dos polinizadores. A importância varia conforme a cultura: algumas plantas dependem intensamente da polinização animal, enquanto outras conseguem produzir sem ela, mas podem apresentar ganhos em quantidade, qualidade ou uniformidade dos frutos.
Uma pesquisa divulgada pela Embrapa em 2026 apontou que o manejo de polinizadores pode elevar em mais de 30% a produtividade da acerola no Semiárido. O resultado reforça que a presença das abelhas não representa apenas uma questão ambiental, mas também um fator econômico para o produtor rural.
Estimativas apresentadas pela Embrapa indicam que os serviços de polinização representam aproximadamente R$ 43 bilhões por ano para a economia brasileira. Esse valor ajuda a revelar uma riqueza que raramente aparece nas embalagens dos alimentos: o trabalho gratuito realizado pela natureza.
A agricultura também precisa proteger quem trabalha por ela
Apesar de sua importância, as abelhas enfrentam ameaças provocadas pela perda de vegetação, redução da diversidade de flores, queimadas, mudanças climáticas, doenças e exposição inadequada a defensivos agrícolas.
Em agosto de 2026, a Embrapa divulgou estudo indicando que a exposição a pesticidas pode afetar a capacidade de navegação das abelhas e reduzir suas viagens para a coleta de alimentos. Mesmo quando a exposição não provoca morte imediata, alterações no comportamento podem comprometer a sobrevivência e a organização das colônias.
A proteção dos polinizadores não exige o abandono da produção agrícola. Exige planejamento, orientação técnica e maior cooperação. A aplicação de produtos durante a floração ou nos horários de maior atividade das abelhas, por exemplo, pode ampliar os riscos. A comunicação antecipada entre agricultores e apicultores permite proteger ou deslocar colmeias quando necessário.
Preservar matas, cercas vivas e plantas nativas nas propriedades também ajuda a garantir alimento e abrigo durante os períodos em que as culturas comerciais não estão florescendo. A diversificação das lavouras, os sistemas agroflorestais e o controle integrado de pragas são outras medidas capazes de aproximar produtividade e conservação.
Abelhas nativas também precisam de espaço
A discussão não deve ficar limitada à Apis mellifera, espécie com ferrão amplamente utilizada na produção de mel. O Brasil possui grande diversidade de abelhas nativas, incluindo espécies sem ferrão, como jataí, mandaçaia, uruçu e mandaguari.
Algumas dessas espécies apresentam comportamento especialmente adequado à polinização de determinadas plantas. A Embrapa já identificou, por exemplo, a eficiência da jataí na polinização do morangueiro. Além de seu potencial agrícola, a meliponicultura — criação de abelhas nativas sem ferrão — pode gerar renda e fortalecer a educação ambiental.
A instalação das colmeias, entretanto, precisa considerar as características de cada espécie, a disponibilidade de alimento, o uso de produtos químicos nas proximidades e as exigências ambientais e sanitárias. Não basta levar caixas de abelhas para uma plantação: é necessário conhecer a cultura, o território e o período de floração.
Uma parceria estratégica para o campo
O futuro da agricultura não depende apenas de máquinas, sementes selecionadas, fertilizantes ou sistemas digitais. Também depende da conservação dos processos naturais que sustentam a produção.
Agricultores e apicultores podem estabelecer parcerias para o posicionamento planejado de colmeias, o compartilhamento de informações sobre aplicações agrícolas e a preservação de áreas de alimentação dos polinizadores. Assistência técnica, pesquisas e políticas públicas são fundamentais para transformar essa aproximação em prática permanente.
Valorizar a apicultura significa reconhecer que o mel representa apenas uma parte do trabalho das abelhas. O maior patrimônio está no voo entre as flores, responsável por conectar biodiversidade, produção rural, renda e segurança alimentar.
Proteger as abelhas não é um gesto romântico distante da realidade econômica. É investir na própria capacidade de produzir alimentos. No campo, agricultura e apicultura pertencem à mesma colheita.
Publicado por:
1605News Brasil
Regina Papini Steiner é jornalista, entrevistadora e diretora teatral, com atuação voltada à cultura, diversidade e aos direitos humanos.
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