Estados Unidos e Irã ampliam ofensiva e elevam temor de nova escalada no Oriente Médio

Maior troca de ataques desde julho atingiu diferentes pontos da região, deixou vítimas civis e pressionou novamente o preço internacional do petróleo.

por Regina Papini Steiner - 1605News Brasil

Estados Unidos e Irã realizaram nesta quarta-feira, 2 de setembro, a mais intensa troca de ataques entre os dois países desde julho. A nova escalada atingiu diferentes pontos do Oriente Médio, ampliou os riscos para a navegação no Estreito de Ormuz e reacendeu preocupações sobre as consequências humanitárias e econômicas de uma guerra que já se prolonga há sete meses.

O Comando Central dos Estados Unidos afirmou ter atacado instalações ligadas à Guarda Revolucionária iraniana. Entre os alvos anunciados estavam sistemas de defesa aérea, radares, estruturas de comunicação, instalações marítimas e equipamentos com capacidade para lançamento de minas.

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O governo norte-americano classificou a operação como uma resposta às ações iranianas contra embarcações e instalações utilizadas pelas forças dos Estados Unidos na região. As informações sobre os alvos atingidos, no entanto, foram divulgadas principalmente pelas próprias autoridades envolvidas no conflito e ainda não foram verificadas de maneira independente em sua totalidade.

O Irã respondeu com mísseis e drones contra locais que, segundo Teerã, eram utilizados por forças norte-americanas no Bahrein, na Jordânia, no Kuwait e no Iraque. Autoridades iranianas alegaram ter causado baixas militares, mas representantes dos Estados Unidos disseram que as avaliações iniciais não indicavam mortos ou feridos entre seus soldados.

No Kuwait, o Irã afirmou ter atacado a Base Aérea Ali Al Salem e um conjunto residencial utilizado por um comandante norte-americano. O serviço de emergência kuwaitiano confirmou que controlou um incêndio em um edifício residencial atingido por um drone. No Bahrein, autoridades informaram que drones iranianos foram interceptados e destruídos. Reuters

Divergências sobre vítimas em festa de casamento

A ofensiva norte-americana também teria provocado vítimas civis no sul do Irã. O balanço mais recente divulgado pelo ministro iraniano da Saúde apontava 18 mortos e 108 feridos na nova série de ataques.

As autoridades iranianas apresentaram números divergentes sobre um ataque que teria atingido uma residência onde acontecia uma festa de casamento, na região costeira de Sirik. Inicialmente, o Crescente Vermelho iraniano informou cinco mortes e cerca de 50 feridos. Uma atualização posterior citada pela Reuters registrou quatro mortos, entre eles uma criança de quatro anos, e dezenas de feridos.

Imagens divulgadas por uma agência iraniana mostraram cômodos destruídos, destroços e objetos pessoais espalhados pelo local. A Reuters informou que não conseguiu verificar de maneira independente as circunstâncias do episódio.

O Comando Central dos Estados Unidos declarou ter conhecimento das denúncias, mas afirmou que as forças norte-americanas não atacam civis intencionalmente. A declaração não encerra a necessidade de uma investigação independente sobre o ataque, os alvos escolhidos e as medidas adotadas para proteger a população.

Pelo Direito Internacional Humanitário, as partes envolvidas em um conflito devem distinguir permanentemente entre alvos militares e civis. Também devem adotar precauções para evitar ou reduzir danos à população e impedir ataques cujos efeitos sobre civis sejam excessivos em relação à vantagem militar esperada. Essas obrigações valem para todos os lados, independentemente das justificativas políticas apresentadas para a guerra. Comitê Internacional da Cruz Vermelha

Petroleiros e tensão no Estreito de Ormuz

A escalada militar ocorre em meio a novos incidentes envolvendo petroleiros no Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o fornecimento mundial de energia.

A Guarda Revolucionária iraniana declarou que dois petroleiros atingiram minas enquanto tentavam atravessar uma rota marítima que não teria sido autorizada por Teerã. A versão iraniana precisa ser tratada como alegação oficial, pois as circunstâncias dos incidentes e a responsabilidade pelas minas ainda exigem apuração independente.

Dados preliminares da empresa de monitoramento Kpler indicaram que apenas quatro embarcações de mercadorias atravessaram o Estreito de Ormuz na terça-feira, abaixo da média de aproximadamente 13 navios registrada nos dez dias anteriores. Antes do início da guerra, a passagem concentrava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos mundialmente. Reuters

Os Estados Unidos sustentam que continuam orientando a passagem de embarcações pela região. O secretário norte-americano de Energia, Chris Wright, afirmou que mais de 17 milhões de barris de petróleo atravessaram o estreito na segunda-feira. O volume divulgado pelo governo dos Estados Unidos não foi confirmado pelos dados preliminares de todas as empresas independentes de monitoramento marítimo.

Petróleo supera US$ 95 e ameaça pressionar inflação

A retomada dos ataques teve efeito imediato sobre o mercado internacional. O barril do petróleo Brent encerrou a quarta-feira cotado a US$ 95,63, alta de 1%. O petróleo norte-americano WTI avançou 0,9%, para US$ 91,01 por barril. Os dois indicadores atingiram os maiores níveis desde 24 de julho. Reuters

O impacto da guerra, entretanto, não permanece restrito aos mercados financeiros. A elevação do petróleo encarece combustíveis, fretes, produção agrícola, fertilizantes e geração de energia. Esses custos podem chegar ao consumidor por meio do aumento dos preços dos alimentos, das passagens e de diferentes produtos industrializados.

Países pobres e dependentes da importação de energia tendem a sofrer os efeitos mais severos. Neles, a alta dos combustíveis compromete uma parcela maior da renda das famílias, pressiona os orçamentos públicos e pode reduzir recursos destinados à saúde, à educação e a políticas de proteção social.

Quanto mais longa e abrangente for a guerra, maior será o risco de que trabalhadores e populações vulneráveis, mesmo a milhares de quilômetros do campo de batalha, paguem parte significativa de sua conta. A interrupção das rotas marítimas, o aumento dos seguros de transporte e a instabilidade no fornecimento de energia transformam um conflito regional em uma ameaça econômica mundial.

Diante da escalada, a prioridade internacional deve ser a proteção da população civil, a investigação transparente de possíveis violações, a preservação das rotas humanitárias e a retomada de negociações diplomáticas. Nenhum objetivo militar elimina a obrigação de respeitar as regras da guerra nem justifica que civis sejam tratados como danos inevitáveis.

FONTE/CRÉDITOS: Reuters — Estados Unidos e Irã realizam maior troca de ataques desde julho Reuters — Forças norte-americanas detalham os alvos atingidos no Irã Reuters — Petróleo sobe com temor de interrupção no fornecimento